sábado, 14 de fevereiro de 2009


A Solidão

Ao estacionar o carro julgou ver luzes no seu apartamento. Não podia ser, tinha certeza de ter apagado todas. Na escada pensou ouvir a mesma melodia, uma das preferidas na juventude.

Subiu contando os passos, depois acelerou o ritmo, sentindo o som tornar-se mais claro. Do último degrau, avistou o “olho-mágico”, gostaria de poder ver através dele o que se passava no interior do apartamento.

Retirou as chaves da fechadura jogando-as sobre a mesinha da sala. Enquanto retirou o calçado, ergueu a cabeça à procura da vitrola, deixada na varanda. Conseguiu avistá-la no pequeno espaço entre as cortinas.

Suas meias deslizaram sobre o assoalho, enquanto recordava dos anos que passaram. Ninguém tivera a coragem de tocar naqueles discos.

— Quem, senão ela...? Não, jamais.

Na sacada, as folhas e flores abandonadas. Não tinha costume de regá-las, retirar folhas secas, livrando seus ramos. Não, não tinha este costume. Era somente dela.

Ainda a via no reflexo das vidraças, no sofá onde horas permaneciam a sós.

Apertou forte as grades da sacada, enquanto olhava a lua, a praça, os carros, as sinaleiras, as luzes da noite em mercúrio. Podia pular, talvez correr no ar e alcançar tudo o que visse, antes de cair na calçada e estatelar-se. Não, por ela, não podia abandonar uma vida em branco.

A lâmpada piscou duas ou três vezes antes de apagar (“outro blecaute”). O som da música parou. Viu uma claridade no outro lado da cortina. Estranhou.

Encontrou a peça iluminada por várias velas acesas, que contornavam o ambiente. Ao centro, onde deveria estar a mesinha, um círculo com velas vermelhas, ao redor de um pacote, embrulhado em papel preto.

Com receio, pegou a caixa — parecia uma caixa —, sacudiu, olhou a fita preta que amarrava o embrulho, e decidiu: abriu o presente. Era uma caixa, um porta-jóias talvez. Trancado. Procurou uma chave. Não encontrou. As letras gravadas na tampa não lhe eram estranhas. Pensou em arrombá-la. Na gaveta do armário da cozinha, havia um alicate, talvez..., quebrar não. (Quem sabe na penteadeira...)

Trocou uma das velas pela caixa e foi até o quarto. A luz voltou, a claridade doeu-lhe os olhos. Ali, em cima do criado-mudo, uma chave minúscula, poderia servir. Voltou à varanda. Vazia, sem velas, sem presente, tudo normal. Exceto a chave na mão, com as iniciais dela, KL. E a sensação de estar precisando dormir.

Anderson Vicente escreve contos, crônicas e poemas. Atualmente, anda se dedicando também à produção de novelas juvenis e infanto-juvenis.


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